Na manhã de 11 de setembro de 2001, tudo indicava que seria um dia comum na redação de O Estado de S. Paulo.
Eu era o editor executivo responsável pela pauta e acompanhava o movimento da redação da minha mesa, próxima à sala do diretor de Redação, Sandro Vaia. A pauta do dia estava organizada e a reunião de pauta com os editores aconteria em seguida, às 10 horas. A rotina de sempre.
Às 8h46 em Nova York (9h46 no Brasil), o voo 11 da American Airlines atingiu a Torre Norte do World Trade Center.
As primeiras informações falavam em um acidente. As emissoras de televisão interromperam a programação e as agências de notícias começaram a atualizar o noticiário minuto a minuto.
Fomos para a sala de reuniões para acompanhar os desdobramentos. Estavam ali os editores de O Estado de S. Paulo, do Jornal da Tarde, da Rádio Eldorado e da Agência Estado. Os editores das sucursais de Brasília e do Rio de Janeiro participavam da reunião por meio do sistema de comunicação da redação, acompanhando as conversas em tempo real.
Enquanto discutíamos as primeiras informações, veio a segunda imagem.
Às 9h03 em Nova York, outro avião atingiu a Torre Sul. Assistimos ao vivo pelas imagens da tevê.
Naquele instante, a hipótese de acidente deixou de existir.
A pauta que havíamos preparado para aquele dia simplesmente desapareceu.
O mundo havia mudado diante dos nossos olhos.
A partir dali, a redação passou a funcionar de outra maneira.
Liguei para Sandro Vaia, que ainda estava em casa, e a estrutura editorial começou a ser reorganizada. Correspondentes foram acionados, as sucursais passaram a trabalhar em sintonia com a cobertura internacional e a Agência Estado entrou em atualização permanente. A Rádio Eldorado interrompeu a programação normal. O jornal impresso começou a preparar uma edição que já sabíamos que seria histórica.
No dia seguinte, O Estado de S. Paulo chegou às bancas com uma edição especial, dedicada quase inteiramente aos atentados.
Foi uma das experiências mais intensas da minha vida profissional.
Ela me ensinou algo que continua válido para qualquer cobertura de grande impacto.
Quando um fato rompe completamente a rotina, a velocidade aumenta, mas os princípios não mudam.
Pelo contrário.
Quanto maior a pressão, maior precisa ser o cuidado com a informação.
Naquele dia, ninguém tinha tempo para discutir teoria. Era preciso decidir rapidamente quais equipes seriam deslocadas, quais informações estavam confirmadas e quais ainda precisavam ser verificadas.
Nenhuma redação responde a uma grande cobertura porque uma única pessoa toma todas as decisões. Ela responde porque existe organização e uma equipe preparada, na qual cada profissional conhece seu papel e sabe assumir responsabilidades quando a notícia exige respostas imediatas.
Foi exatamente isso que vi acontecer.
Enquanto alguns editores reorganizavam a cobertura, outros acionavam fontes, acompanhavam as agências internacionais, definiam prioridades e preparavam as próximas edições. Tudo acontecia ao mesmo tempo.
No meio daquele fluxo de informações, uma preocupação permanecia constante: separar o que estava comprovado do que era apenas especulação. E mais: entender o que ainda estava acontecendo.
Em momentos como aquele, as pessoas procuram respostas para perguntas muito simples.
O que aconteceu?
Por que aconteceu?
O que muda a partir de agora?
O papel do jornalismo é ajudar a responder essas perguntas com serenidade, mesmo quando ainda estamos vivendo os acontecimentos.
Passados tantos anos, não guardo como principal lembrança a edição histórica que produzimos.
O que permanece é a lembrança de uma redação tentando entender o mundo enquanto ele mudava diante dos nossos olhos.
