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A notícia deve chegar a quem precisa dela

Há algum tempo venho ouvindo a mesma ideia em debates sobre o futuro do jornalismo.

As pessoas não querem mais notícias. Preferem vídeos curtos, resumos produzidos por inteligência artificial ou as mensagens que chegam pelos grupos de WhatsApp.

Sempre que escuto esse diagnóstico, lembro de uma experiência que vivi muitos anos antes da internet comercial existir.

Naquela época, a Agência Estado era conhecida principalmente por distribuir o conteúdo produzido por O Estado de S. Paulo. Mas um grupo de jornalistas liderado por Rodrigo Mesquita, Sandro Vaia e Elói Gertel começou a fazer uma pergunta diferente.

Em vez de pensar apenas em distribuir notícias, passou a pensar em como fazê-las chegar mais rapidamente a quem realmente precisava delas.

Parece uma diferença pequena.

Não é.

Ela mudou a história da empresa.

Foi dessa ideia que nasceu um dos projetos mais inovadores do jornalismo brasileiro.

A Agência Estado incorporou a Broadcast, empresa que fornecia e operava os terminais utilizados diariamente pelos operadores do mercado financeiro para executar operações de compra e venda de ativos.

A inovação foi incorporar aos terminais um fluxo contínuo de notícias produzidas pela redação da Agência Estado.

Hoje isso parece natural.

Na época foi uma ruptura.

Enquanto operavam o mercado, aqueles profissionais passaram a acompanhar, na mesma tela em que trabalhavam, acontecimentos capazes de influenciar imediatamente suas decisões.

A notícia deixou de esperar o leitor.

Ela passou a estar exatamente onde era necessária.

A mesma lógica deu origem a outros dois produtos igualmente inovadores.

O FaxPaper entregava, por fax, um resumo das principais notícias da manhã pouco antes da hora do almoço.

O Newspaper chegava ainda mais cedo, reunindo as manchetes e os principais assuntos publicados pelos jornais do país para que executivos e profissionais começassem o dia já informados.

É difícil imaginar o impacto disso hoje.

Vivemos conectados o tempo todo. Naquele momento, porém, não existia internet comercial. Receber informação selecionada, organizada e atualizada diretamente no escritório representava uma enorme vantagem para quem precisava tomar decisões ao longo do dia.

Não era tecnologia pela tecnologia.

Era jornalismo chegando mais rapidamente a quem precisava dele.

Naquele ano, a Agência Estado recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria especial de contribuição à imprensa. Mais do que reconhecer novos produtos, o prêmio consagrava uma maneira diferente de pensar o jornalismo.

A empresa deixava de ser apenas uma distribuidora de notícias para se transformar numa verdadeira usina de informação.

Essa lembrança voltou enquanto lia um excelente artigo do jornalista Rodrigo Lara Mesquita sobre a crise do jornalismo diante das plataformas digitais.

O texto mostra como as Big Techs reorganizaram a circulação da informação e levaram o jornalismo a disputar atenção em um ambiente criado para manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível.

É uma análise importante.

Mas ela também me fez pensar que talvez estejamos cometendo um erro mais simples.

Durante muitos anos, o jornalismo procurou entender profundamente quem precisava da informação que produzia.

Depois passamos a acreditar que precisávamos disputar a atenção de todo mundo.

Foi quando começamos a jogar um jogo que nunca foi o nosso.

Talvez seja isso que eu queira dizer quando uso a metáfora de tentar vender churrasco para vegetariano.

Não há nada de errado com quem não se interessa por jornalismo.

Sempre foi assim.

O problema começa quando as redações passam a produzir pensando principalmente nesse público e acabam deixando em segundo plano quem realmente depende de informação confiável para compreender a realidade.

Esse público continua existindo.

São pessoas que precisam tomar decisões, administrar empresas, acompanhar políticas públicas, entender mudanças econômicas ou simplesmente exercer a cidadania com base em fatos verificados.

A tecnologia mudou completamente desde aqueles primeiros produtos da Agência Estado.

Hoje temos internet, redes sociais, celulares e inteligência artificial.

As ferramentas mudaram.

A pergunta continua a mesma.

Como fazer o jornalismo chegar, da melhor maneira possível, a quem realmente precisa dele?

Foi essa pergunta que produziu algumas das maiores inovações que vivi ao longo da profissão.

E continuo achando que ela aponta um caminho melhor do que tentar convencer quem não se interessa em realmente saber o que está acontecendo.

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