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O que aprendi em Angola a respeito de jornalismo e da vida

No fim de 1998, recebi um convite para integrar um projeto de modernização da Agência Angola Press (Angop). Minha primeira reação foi hesitar. Eu era repórter de economia da Agência Folha em São Paulo, minha rotina era o mercado financeiro e a política da maior metrópole do país. Era intenso, mas estruturado, com fontes consolidadas e território seguro.

A proposta era romper com essa inércia e entrar numa realidade que eu mal conseguia imaginar.

Antes de decidir, consultei o jornalista Ricardo Noblat, que já tinha trabalhado em Luanda. Ele foi cirúrgico: Angola vivia uma guerra civil desde a independência, em 1975. O conflito entre MPLA e UNITA já tinha matado centenas de milhares. A infraestrutura do país estava destruída. As condições de vida eram severas, as de trabalho, precárias.

Mas Noblat acrescentou algo que pesou na balança: era uma oportunidade única de fazer jornalismo com propósito e impacto real.

Decidi ir. E fui.

O cenário de guerra

Quando cheguei a Luanda, em 1999, o país já completava 24 anos ininterruptos de hostilidades. A capital era uma zona de segurança relativa, mas a beligerância estava em toda parte. A rotina era marcada por postos de controle militar, escassez de serviços básicos e pobreza estrutural. Para além da capital, o conflito era mais brutal. A economia informal mantinha as pessoas vivas, e, apesar da falta de recursos, sobrava dignidade.

Foi nesse cenário que começamos a trabalhar na Angop.

A Angop tinha um bom corpo técnico, mas sofria com problemas editoriais e tecnológicos. Os fluxos de produção eram lentos, o portal precisava ser refeito do zero. A agência estatal não conseguia projetar as informações do país para o mundo e, muitas vezes, nem abastecia os veículos locais.

Não era uma consultoria teórica. Era imersão diária: sentar ao lado dos jornalistas angolanos, entender seus problemas, propor soluções que fizessem sentido ali.

Encontramos profissionais de alto valor. Eles conheciam o território profundamente, estavam acostumados a reportar em condições adversas e produziam informação com o mínimo de recursos. Não foi um ensino unilateral – foi um intercâmbio. Oferecemos ferramentas de organização editorial e absorvemos a resiliência de quem opera em um país partido pela guerra.

Contamos também com os jornalistas Carlos Brasil e Sérgio Del Giorno. Juntos, passamos dois anos reestruturando a agência. A Angop ganhou agilidade. O noticiário sobre Angola passou a circular com velocidade e precisão, tanto internamente quanto nas chancelarias e redações estrangeiras. A agência se consolidou como referência internacional para a cobertura de Angola – um patamar inédito.

Lições aprendidas

A experiência em Luanda me ensinou coisas que nenhuma redação brasileira poderia reproduzir.

Primeiro: jornalismo relevante não exige condições ideais; exige profissionais obstinados.

Segundo: a responsabilidade social da palavra. Num ambiente fraturado por décadas de violência, o erro jornalístico tem consequências imediatas. Uma informação imprecisa, uma fonte não checada, um dado distorcido – tudo isso podia ser um estopim. Em Angola, entendi que a precisão não é uma virtude acessória; é uma necessidade de sobrevivência.

Terceiro: a profundidade cultural daquele país – sua literatura, sua música, suas tradições orais – me mostrou que o jornalismo também é uma ferramenta de tradução cultural, um esforço para decodificar realidades complexas.

Por fim, a experiência provou que é possível construir laços humanos indestrutíveis na adversidade. A convivência com os colegas angolanos, e a parceria diária com Carlos e Sérgio, criaram amizades moldadas pelo risco compartilhado e pelas pequenas vitórias editoriais.

O saldo

Deixei Angola em 2001. O conflito só terminou no ano seguinte. A Angop continuou seu processo de reestruturação, usando as bases que deixamos.

Pessoal e profissionalmente, Luanda se tornou meu principal parâmetro de avaliação de crise. Quando enfrento coberturas complexas, lembro que o jornalismo já foi feito em condições muito mais hostis. Aprendi que é possível produzir trabalho rigoroso, preservar a integridade das relações e extrair conhecimento técnico mesmo na periferia da segurança.

O jornalismo de impacto não acontece só nas redações corporativas hiperconectadas. Acontece, muitas vezes, onde os recursos escasseiam, mas a necessidade de narrar a história com exatidão é um imperativo.

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