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Um olhar preciso para além das lentes

Quando Ana Brambilla escreveu no LinkedIn sobre as escolhas envolvidas no ato de publicar e na seleção do que merece atenção, lembrei de uma fala do fotojornalista Damir Sagolj sobre o impacto da presença do fotógrafo na cena.

Escolher é parte do trabalho. Edição é escolha. Mas a presença do observador também altera o que está sendo observado.

Sagolj resume isso de forma direta: tente ser invisível.

“Eu entro em cena tentando ser o mais invisível possível. Não entro com a câmera apontando para tudo.”

Outros fotógrafos documentais dizem o mesmo, com variações.

No meu trabalho com texto e imagem, essa questão aparece o tempo todo. A simples presença de uma câmera muda o comportamento das pessoas. Em qualquer ambiente — uma rua, um evento, um encontro — isso é perceptível.

Por isso, muitos fotógrafos optam hoje por equipamentos menores, que reduzem a interferência na cena.

Essa lógica também vale para o jornalismo. Observar antes de intervir. Entender antes de registrar.

A não interferência total não existe. Mas há graus de presença.

E quanto menor a interferência inicial, maior a chance de compreensão do que está acontecendo.

Foi isso que a própria Ana levantou na troca de mensagens quando perguntou se esse “perceber melhor” seria uma forma de chegar mais perto da verdade.

Prefiro falar em precisão.

Aidan White, da Ethical Journalism Network, propõe cinco princípios centrais do jornalismo: precisão, independência, imparcialidade, humanidade e responsabilidade.

Precisão vem primeiro. Trabalhamos com fatos verificáveis.

Isso se aplica também ao jornalismo visual.

Dan Milnor, fotógrafo documental, defende o uso de equipamentos mais discretos exatamente para reduzir a interferência na realidade que se observa.

“Quanto mais equipamento, menos acesso.”

O fotojornalista Hélio Campos Mello, que trabalhou em diferentes contextos, também fala sobre essa relação entre aproximação e observação. Em projetos recentes, ele busca primeiro a convivência, depois a imagem.

“Eu procuro chegar de leve. Conversar primeiro. Depois fotografar.”

São estratégias diferentes, mas com um mesmo ponto de partida: reduzir a interferência para observar melhor.

A mesma lógica vale para o texto.

Antes de registrar uma história, é preciso entender o que está diante de nós.

E isso exige tempo de observação, escuta e atenção ao contexto.

No mundo atual, marcado por excesso de informação, versões simultâneas e desinformação, esse processo se torna ainda mais necessário.

No fim, não se trata de ser invisível.

Mas de reduzir o ruído entre o observador e o que está sendo observado o suficiente para que a história possa ser compreendida com precisão.

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